Tiago Sá: “Quando desenhas uma creche, impactas a vida de dezenas de pessoas todos os anos”

Entre chegadas e partidas, embarcamos na viagem de Tiago Sá, um arquiteto com um percurso internacional que passou por cidades como Praga, Paris, Nova Iorque ou Copenhaga. De regresso ao Porto, fundou o sastudio, onde projeta edifícios comunitários que tanto nascem sob o sol de Portugal como ganham vida sob as auroras boreais da Islândia. Queria ser pintor, mas foi a arquitetura que lhe roubou o coração — e, pelo caminho, foi também moldando um percurso feito de crescimento, concursos internacionais ganhos (e outros tantos perdidos) e uma boa dose de casmurrice quando acredita mesmo numa ideia.

Tiago Sá, fundador do SaStudio, startup incubada na UPTEC
Olá, Tiago. Bem-vindo ao Out of Office.

Olá, Ana Luísa! Muito obrigado pelo convite para estar aqui e partilhar um bocadinho da minha história!

Podes começar por nos contar um pouco sobre o teu percurso até chegares à UPTEC?

O meu percurso profissional começou na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Depois fiz Erasmus em Praga, na República Checa, e o meu primeiro emprego foi um estágio na Dinamarca. Regressei para terminar a tese e, entretanto, voltei a sair: trabalhei algum tempo na China, depois em Paris, e mais tarde estive cerca de um ano e meio em Nova Iorque. Voltei depois a Copenhaga e fiz um MBA em Arquitetura em Madrid. Acabei por regressar ao Porto e foi aí que abri o meu escritório.

Já conheces bem o mundo (risos).

Um bocadinho, sim.

Para quem não conhece, o que é exatamente o Sastudio?

É um ateliê de arquitetura com foco em projetos de cariz social. Evitamos ao máximo projetos de habitação unifamiliar e procuramos trabalhar sobretudo em infraestruturas públicas — creches, escolas, centros sénior, lares, espaços públicos, bibliotecas e algum planeamento urbano.

Sempre quiseste ter um estúdio teu ou foi algo que foi crescendo ao longo do tempo?

Acho que isso começa um bocadinho ainda na faculdade — aquela ideia do “arquiteto autor”. Mas, no meu caso, não foi tanto por aí. O meu primeiro estágio foi num dos meus ateliês preferidos e tive muita sorte. Apesar de ser um escritório com o nome do fundador, a estrutura era muito horizontal — a opinião de um estagiário podia ter tanto peso como a de um sócio — e isso fez-me sentir que podia trabalhar para sempre num ambiente assim. A única razão pela qual saí foi porque havia muitos projetos com os quais não me identificava.

E isso levou-te a querer criar algo próprio?

Sim. Havia um tipo específico de projetos em que queria trabalhar e senti que, por conta própria, talvez conseguisse focar-me nisso. Na altura comecei com um sócio, mas depois as visões acabaram por não alinhar e ele regressou a Itália. Eu continuei com o projeto. Mesmo esses momentos que parecem negativos acabam por ser importantes — provavelmente sozinho não teria tomado a decisão de voltar a Portugal e começar algo do zero.

O que é que faz um arquiteto querer trabalhar maioritariamente em projetos de cariz social?

Não sei se há uma resposta única, mas no meu caso tem muito a ver com a abrangência. Quando faço um apartamento é para uma família. Quando faço uma creche é para dezenas de crianças todos os anos — há uma renovação constante de pessoas e impacto. Acho que acaba por ser isso: o alcance que esses projetos têm na vida das pessoas.

Quantas pessoas trabalham atualmente no estúdio?

Somos cerca de meia dúzia no Porto e temos uma equipa semelhante no nosso escritório parceiro na Islândia.

Tiago Sá, fundador do SaStudio, startup incubada na UPTEC
Como tem sido o percurso do estúdio até aqui?

Errático, como qualquer empresa (risos). No início tivemos de apostar muito em concursos, muitos deles não remunerados — algo bastante comum na arquitetura e não vemos outras profissões a funcionar assim. Como queríamos trabalhar em obra pública, esse era o caminho. Só depois de termos portefólio construído é que começámos a ser levados mais a sério por municípios e entidades. E só agora, ao fim de sete ou oito anos, é que começamos a ser convidados para concursos mais limitados, em vez de competir com dezenas ou centenas de ateliês.

Qual foi o melhor momento do vosso percurso até agora?

Provavelmente o primeiro concurso que ganhámos. Foi logo a seguir ao COVID, numa altura muito complicada — muitos projetos foram cancelados e ficámos sem trabalho. Tivemos alguma sorte porque antigos empregadores na Dinamarca nos deram projetos remotos, o que nos permitiu manter e até crescer a equipa. Entretanto surgiu um concurso na Islândia, o primeiro que fizemos com a nossa parceira local. Não podíamos viajar, por isso trabalhámos apenas com imagens de drone e reuniões online. Quando ganhámos, foi um momento surreal — toda a gente a celebrar de máscara (risos). Esse projeto acabou por ser a nossa rampa de lançamento.

E momentos menos bons?

Há sempre, claro. Mas mesmo os momentos mais difíceis acabam por trazer aprendizagem. Por exemplo, antes de ganharmos esse concurso na Islândia, perdemos cinco ou seis. Em todos eles recebemos feedback sobre o que não tinha funcionado e isso ajudou-nos a perceber onde melhorar.

Sabendo o que sabes hoje, terias feito algo diferente?

Não, não. Porque mesmo quando corre mal, aprendemos. No início éramos três amigos em Nova Iorque com a ideia de fazer mais do que os projetos que estávamos a desenvolver. Trabalhámos até com ONGs, em projetos pro bono. Quando decidimos avançar, dois de nós vieram para Portugal e abrimos o ateliê. Até a dissolução da sociedade acabou por ser necessária para alinhar a visão do projeto.

Hoje trabalham muito em colaboração com outros ateliês. Como surgem essas ligações?

A maioria dos nossos projetos são colaborativos. O caso da Islândia surgiu porque percebemos que estávamos a competir num contexto completamente diferente. Havia coisas que faziam sentido para nós e não funcionavam lá de maneira nenhuma, por isso procurámos alguém local com valores semelhantes e encontrámos a parceira certa. A partir daí, o processo tornou-se muito natural.

E porquê a Islândia?

Foi quase por exclusão de partes. Estávamos a analisar vários países e a Islândia era onde estavam a surgir mais concursos dentro do tipo de projetos que queríamos fazer. França e Alemanha têm muitos concursos, mas numa escala muito maior. Para um estúdio pequeno, não era viável. Na Islândia encontrámos uma oportunidade — e não me arrependo nada.

“Sou casmurro — especialmente nos projetos. Se acredito numa ideia, luto por ela até ao fim.”

Consideras que a arquitetura está muito ligada à cultura?

Completamente. Na Islândia, por exemplo, tens de pensar em coisas como o frio extremo, a falta de luz, as várias camadas de entrada nos edifícios para trocar de roupa. Aqui preocupamo-nos em bloquear o sol; lá queremos captar o máximo de luz possível. São realidades completamente diferentes.

Também já trabalhaste em projetos muito distintos, como creches e lares. Como é que se desenham esses espaços?

Sim, são extremos — início e fim de vida — mas ambos têm uma importância enorme. Numa creche, pensamos muito na segurança e no controlo do espaço sem o tornar restritivo. Num lar, há desafios semelhantes, mas também a necessidade de conforto para pessoas que perderam alguma autonomia. Tentamos sempre ir além do básico e pensar na qualidade de vida — luz, vistas, espaços exteriores.

Viveste em várias cidades. Isso mudou a forma como vês esses espaços?

Sim, muito. Uma coisa é visitar como turista, outra é viver lá. Paris, por exemplo, mudou muito para mim quando passei a viver lá. Por outro lado, Copenhaga destacou-se pela qualidade de vida e pela relação com o espaço público.

Então e porque decidiste voltar ao Porto?

Porque é a minha cidade (risos). Tem uma cultura incrível, pessoas muito abertas, excelente gastronomia. Apesar de ter vivido fora muitos anos, havia sempre essa vontade de voltar. Ainda não conseguimos desenvolver tantos projetos cá como gostaria, mas é um objetivo.

Tens algum destino que ainda queiras conhecer?

Japão. Está na lista há algum tempo e continua por concretizar.

Tiago Sá, fundador do SaStudio, startup incubada na UPTEC
E objetivos futuros?

Mais do que prémios ou reconhecimento, interessa-me o impacto do nosso trabalho. O que deixamos nas gerações futuras é o mais importante.

Qual é o teu maior defeito?

Sou casmurro, sou muito casmurro (risos) — especialmente nos projetos. Se acredito numa ideia, luto por ela até ao fim.

E a maior qualidade?

Diria a paixão pelo que faço. É profissão, mas também é hobby. Muitas vezes estou no tempo livre e dou por mim a desenhar.

E quando eras criança, o que querias ser?

Passei por tudo (risos) — astronauta, piloto… Mas mais tarde queria ser pintor. Acabei por ir para arquitetura e percebi rapidamente que era o caminho certo. Atualmente ainda tenho vontade de voltar a pintar, mas como hobby.

Há algo sem o qual não consigas viver?

A minha noiva (risos).

Excelente resposta (risos)! Tens alguma palavra preferida?

Essa é difícil… teria de pensar melhor. Talvez tenha de perguntar à minha mulher — ela é a parte engraçada da relação (risos).

“Mais do que prémios ou reconhecimento, interessa-me o impacto do nosso trabalho. O que deixamos nas gerações futuras é o mais importante.”

28 de abril de 2026

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