Ana Ferreira: “A forma de gerires e atuares no meio empresarial tem de se identificar muito com a tua forma de ser “
Ana Ferreira: “A forma de gerires e atuares no meio empresarial tem de se identificar muito com a tua forma de ser “
Ana Ferreira, fundadora e CEO da b-create, é minhota – nasceu em Braga e por lá se manteve durante o curso de Informática de Gestão, que tirou na Universidade do Minho. Começou a carreira como consultora, mas desde os tempos de estudante que sabia que um dia ia ter a sua própria empresa. Inicialmente chamada Wine Create, a b_create surgiu não só de uma necessidade de mercado, mas também da admiração pelas pessoas e qualidades da indústria dos vinhos. Hoje, trabalha com as maiores empresas vitivinícolas portuguesas, algumas em Espanha, e tem os olhos postos noutros países europeus, na América Latina, EUA e África do Sul.
O que é exatamente a b_create?
A b_create é uma plataforma de software desenhada especificamente para a indústria de vinhos e bebidas e que ajuda estas empresas a integrarem e agilizarem todo o processo de inovação e desenvolvimento de produtos. Desde que a ideia ou requisitos para um produto, até que esse produto ser lançado no mercado, nós ajudamos a integrar toda a informação necessária, que é muita, toda a comunicação entre os vários departamentos, várias pessoas, para toda a gente ter a mesma versão da verdade em tempo real.
Como é que te surgiu esta ideia de adaptar totalmente um software de gestão de produto à indústria do vinho?
Essa pergunta é inevitável. Porque gosto de vinho! – Estou a brincar (risos). Não só. Também porque gosto de vinho, mas porque é uma indústria muito especial. A começar pelas pessoas e pela forma como comunicam o seu negócio, com muita paixão, muito teor familiar. E para além disso, quando comecei, já tinha uma ligação a algumas empresas de vinho. Estando aqui no Porto é mais fácil, não é? E por isso começamos a questionar alguns clientes, que rapidamente aderiram à ideia. E, portanto, digamos que o início não foi o mais difícil.
E porque é que escolheste este nome para a b_create?
Inicialmente chamava-se Wine Create, foi assim que começou. O b foi um upgrade para beverage – a perceção não é imediata, eu sei, mas foi uma forma rápida de adaptação, para abrirmos mais possibilidades, porque efetivamente já havia algo mais além do vinho.
Então vocês agora trabalham além do vinho?
Sim. Trabalhamos essencialmente com médias e grandes empresas ligadas ao vinho, mas algumas também produzem bebidas espirituosas, licor, cerveja e. e não alcoólicas, assim como azeite, vinagre, etc. Começam cada vez mais a surgir outros produtos e o leque de categorias é mais variado.
Mas não vês a b_create a sair deste nicho da indústria vinícola e de bebidas?
A b_create manterá sempre este nicho. No entanto, poderão existir outros verticais, ligados a outras indústrias. Para já, o nosso foco são vinhos e bebidas.
Quantas pessoas é que trabalham atualmente?
Somos nove.
E quando é que surge esta ligação à UPTEC?
Surgiu numa fase de mudança, precisamente quando nós estávamos à procura de um espaço novo. Eu na altura conhecia o André Forte (ex coordenador de negócio da UPTEC) e falei com ele. Visitei a UPTEC e era o único espaço disponível, a sala onde estamos agora. E gostei muito do sítio, e do enquadramento, estamos muito bem lá.
Boa, ainda bem! Quem é que são os clientes e os potenciais clientes da b_create?
Atualmente trabalhamos, como te disse, com médias e grandes empresas em Portugal e Espanha. Estamos a trabalhar, por exemplo, com o grupo Kopke, a Fladgate (donos da Taylors e do Yeatman), a Wine Stone (Grupo José de Mello), a Adega Mayor (Grupo Delta), Fundação Eugénio de Almeida e muitas outras. Diria que as maiores empresas de Portugal já trabalham connosco, praticamente todas, e agora, mais recentemente, também em Espanha. Muito em breve, espero, na América Latina e África do Sul.
Qual é que achas que é o momento-chave da empresa até agora?
Eu acho que houve vários, mas um deles foi quando ganhamos o primeiro cliente internacional, porque de facto, o teu mindset muda e é um marco importante que tu ultrapassas. Deixas de pensar só no mercado local e passas realmente a constatar que consegues ir para fora de Portugal. Depois é mais fácil.
Achas que houve algum momento menos bom?
Durante estes oito anos e meio de empresa? Houve! (risos) Acho que qualquer founder te diz isso, sim.
Algum que queiras destacar, ou preferes focar-te no que correu bem?
Olha, dizem, e eu comprovo, que os maiores medos de um CEO, o que nos tira o sono à noite, são o ficar sem dinheiro e ficar sem equipa. Diria que são os maiores pesadelos de uma startup. E no início, e mais ou menos a meio do percurso, eu passei pelas duas situações. Foram talvez as situações mais complicadas da minha vida profissional – que interfere também com a vida pessoal – no sentido de ser uma fase muito difícil de ultrapassar. Mas a verdade é que foram fases necessárias, foram ultrapassadas e a empresa ficou mais forte.
E tu, sabendo o que sabes agora, achas que terias feito alguma coisa diferente no percurso da b_create?
É claro que sim. Muita coisa diferente (risos).
Queres enumerar algumas?
Quando eu saí da Deloitte, criei uma empresa de serviços de consultoria, os clientes seguiram-me e foi uma coisa muito fácil. E, portanto, eu tinha muita confiança no que ia conseguir a seguir. Se calhar foi algum excesso de confiança que me levou a começar algo completamente diferente do que tinha feito antes, achando que não ia ser difícil. Criar e lançar um produto novo no mercado, numa indústria que ainda é tradicional é completamente diferente de vender serviços e implementar soluções de terceiros.
E então foi tudo novo, inclusive a perceção do capital que eu achava que ia precisar. Hoje, eu teria sido mais cautelosa e pragmática, teria começado com mais capital e com uma equipa mais experiente também. Julgo que isto teria feito a diferença e teríamos avançado de uma forma menos dolorosa, digamos assim.
“Dizem, e eu comprovo, que os maiores medos de um CEO, o que nos tira o sono à noite, são o ficar sem dinheiro e ficar sem equipa”
Tu disseste que criaste uma empresa de serviços de consultoria após teres estado na Deloitte e depois criaste a b_create. O que é que te deu este bichinho de querer ser uma coisa tua, em vez de trabalhares para uma consultora, por exemplo?
É curioso que, desde que eu era estudante universitária, sempre quis ter a minha empresa. Sempre foi quase um dado adquirido. Portanto, mal surgiu a oportunidade na Deloitte, numa fase tumultuosa de fusão com a Arthur Andersen e estando eu numa área onde trabalhava de forma muito autónoma, agarrei a oportunidade e criei a empresa Fazia exatamente o mesmo sendo que parte dos clientes eram os mesmos também. A empresa ao longo dos anos foi crescendo e evoluiu também para a parte de produto. Nessa altura, criei uma equipa que desenvolvia soluções à medida em Outsystems. E foi aí, precisamente, que eu vi a oportunidade de mercado que existia e decidi criar a b_create.
Achas que é fácil conciliar a tua vida pessoal ou profissional? Ou elas acabam por se intersecionar em quase todas as vertentes?
Diria que tem sido uma aprendizagem. No início senti, e provavelmente muitos outros founders também, que há uma espécie de quase standard ou de “coisas que um CEO deve fazer”, um guia para o que o CEO deve ou não ser. Isso não é verdade, isso não existe. No início eu sentia essa pressão e insegurança. Felizmente acho que este padrão se tem vindo a desconstruir. Há cada vez mais exemplos de muitos founders, no mundo inteiro, a relatarem experiências muito diversificadas. Na minha opinião, a forma de gerires e atuares no meio empresarial tem de se identificar muito com a tua forma de ser e com as tuas características únicas, o que te define. Se fugires a isso, ou se tentares gerir ou ser de uma forma que alguém te diz que é a correta, a coisa não vai correr bem, nem para ti nem para a empresa.
Na minha opinião, a forma de gerires e atuares no meio empresarial tem de se identificar muito com a tua forma de ser e com as tuas características únicas, o que te define. Se fugires a isso, ou se tentares gerir ou ser de uma forma que alguém te diz que é a correta, a coisa não vai correr bem, nem para ti nem para a empresa. E, portanto, isso foi e continua a ser uma aprendizagem. O gerir à minha maneira, mas sempre aberta a opiniões, desenvolvendo também muito o instinto, a confiança e o pragmatismo.
Tens visto muitas mudanças no panorama do ecossistema de startups desde que começaste?
Sim, tenho visto bastantes: Muitas mais [startups]. Eu criei esta empresa há quase nove anos. Por exemplo, agora vêem-se muitas mais mulheres na área de software, o não era uma coisa nada comum. Tenho visto também a tal maior descontração no meio das startups, um maior equilíbrio e consciência na relação com o trabalho. Ou seja, as pessoas e as organizações já não transmitem tanto aquela pressão, um pouco herdada de Silicon Valley.
Havia aquela ideia de que temos quase que nos gabar do quanto trabalhamos. Trabalhar mesmo 24/24.
Totalmente, sim. É o tal “Não chega ser, tem que se parecer”, ser de determinada forma. Acho que houve de facto uma altura em que ficava bem dizer que não tirávamos férias, não tirávamos fins de semana. E agora muita gente vem dizer o que funciona para cada um. E funciona! Portanto acho que isso é um caminho seguido por cada vez mais gente, o ser mais feliz a trabalhar. E eventualmente mais bem-sucedido.
Enquanto fundadora, o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal foi uma aprendizagem que deve, em parte, à prática regular de meditação e ioga. Tem o sonho de viver noutro país, mas sem perder a âncora que a prende à cidade do Porto.Para o regresso do Out of Office, fomos até à Foz do Douro, onde o bom tempo permitiu uma visita à praia e uma conversa acompanhada por um vinho que, segundo Ana Ferreira, seria uma boa representação da empresa que criou.
Sobre esta interseção da vida pessoal e profissional – nós sabemos que o ioga é um passatempo que tu gostas de fazer. Como, e quando, é que começaste a fazer ioga?
Eu faço meditação há mais de dez anos e, portanto, fez parte do meu crescimento e do meu desenvolvimento pessoal, em todas as vertentes. A partir daí, descobri também o ioga, foi uma consequência. E as duas coisas juntas foram um ingrediente, diria, em grande parte, responsável por este equilíbrio que tu mencionas, entre quem eu sou e o que sou na empresa. A conjunção equilibrada dos dois papéis proporciona-me um maior equilíbrio interior, uma calma e clarividência que, enquanto CEO, preciso para tomar decisões. Acho que isto é um pilar fundamental e por vezes não damos a devida importância a esse tempo que é necessário para acalmar o ruído vindo da nossa mente, e de todas as opiniões que surgem à nossa volta. Refletir realmente no que é importante e é preciso fazer.
É uma prática diária para ti a meditação?
Praticamente diária, sim.
E o ioga também, por conseguinte.
Gostava que fosse mais (risos). não diária, mas tento fazer duas a três vezes por semana.
É curioso que tenhas começado esta prática da meditação, e mais tarde ioga, quase em paralelo com a criação da b_create. Estavas a dizer que há dez anos mais ou menos que meditas.
É uma boa observação, sim. Nunca tinha pensado nisso (risos). Sim, foi antes um bocado, mas já estava nesta vida de empreendedora é verdade.
Há outros passatempos que tu achas que te ajudam a manter este equilíbrio entre a vida profissional e laboral?
Claro que sim: o convívio e a proximidade com a família, com os amigos. É muito importante, mesmo vital para o meu equilíbrio.
O viver aqui, é muito bom. Perto do mar e do rio. As caminhadas, as corridas. O contacto com a natureza, no geral, é também super importante para o meu equilíbrio, diria para o de qualquer pessoa.
Já moraste em alguma cidade que não o Porto, e o Minho?
Não. É um dos desejos que eu tenho, de facto, viver noutros países. Já viajei muito, mas só vivi nestas duas cidades. Nunca tinha pensado sobre isso (risos).
Vês-te a ficar aqui no Porto?
Eu escolhi viver aqui no Porto, sim. Poderei viver noutro sítio, mas acho que terei sempre esta âncora.
Acho que a cidade nos prende mesmo.
Também sentes isso, não é? Acho que é uma cidade com muita personalidade e que nos incentiva também a nós a desenvolver isso, a nossa individualidade.
Falando em individualidade, tenho aqui uma pergunta mais sobre a área em que tu estás, que é o vinho. Se a b_create fosse um vinho, como é que tu descreverias esse vinho?
Essa pergunta é difícil (risos). Então, acho que seria um vinho leve, fresco, cítrico. Com as notas de maresia. Aqui do mar, o mar do Norte. E é essencialmente isso. E com um grau alcoólico levezinho, assim equilibrado.
Um branco.
Exato. Um branquinho leve, tranquilo.
Como o que nós estamos a beber (risos). E se a Ana Ferreira fosse um vinho, que tipo de vinho seria?
A Ana Ferreira seria um vinho mais intenso, talvez um vinho do Douro mais complexo, que amadurece bem com o tempo.
Achas que seria branco ou tinto?
Tinto, claro.
Qual foi o momento mais impactante da tua vida até agora?
De toda a minha vida? (risos) Não sei se sei responder a essa pergunta. O momento mais impactante, não sei se consigo eleger um. Tive muitos.
“Há algo muito interessante que acontece quando estou a seguir o caminho que sinto que realmente faz sentido – aparecem as pessoas certas nos locais certos.”
Tens alguém, alguma pessoa, que tenha marcado especialmente na tua vida?
Também várias. Claro que a minha família, os meus pais, têm um papel super importante neste desenvolvimento, mas há outras pessoas que me foram acompanhando em momentos diferentes da vida e que tiveram um papel essencial. Alguns permaneceram, outros não. Há algo muito interessante que acontece quando estou a seguir o caminho que sinto que realmente faz sentido – aparecem as pessoas certas nos locais certos. Mas identificar assim um suprassumo é difícil (risos).
Se tivesses de eleger uma data importante na tua vida, tens alguma?
Epá, também é difícil (risos). Lá está, teria de pensar. Há várias também. O que sinto é que a minha vida está sempre em constante mudança e talvez por isso seja difícil dizer-te apenas um momento. Sinto é que sou muito diferente da pessoa que era há três anos, há dois… E, portanto, esta constante mudança faz com que eu tenha momentos marcantes sempre muito diferentes.
Tu achas que a b_create acompanha a tua evolução enquanto pessoa? Achas que conseguiste moldar a empresa à pessoa que te estavas a tornar, ou tentas manter essas duas vertentes muito separadas?
Sem dúvida que sim, que se foram aproximando. No início estavam muito separadas, havia quase duas pessoas diferentes. Lá está, a pessoa que eu deveria ser segundo determinados cânones, e depois era eu, mais autêntica, fora do trabalho. O que acontece é que depois no dia-a-dia as duas coisas intercetam-se muito, e tu não és feliz se não fores também autêntica no lado profissional. E, portanto, as duas coisas foram-se aproximando e foi um treino que eu fui fazendo, algo que se foi desenvolvendo. Hoje, sou da opinião de que quanto melhor conciliares as duas coisas, mais feliz és no trabalho e, eventualmente, mais sucesso terás no trabalho.
Há alguma coisa sem a qual não consigas viver?
Eu não conseguiria viver sem este equilíbrio da minha vida pessoal e vida profissional. Sem ter amizade e amor à minha volta, acho que isso é fundamental para qualquer pessoa.
Qual é que achas que é a tua maior qualidade?
Dizem-me que é a empatia (risos). Acho que sim, concordo.
E o teu maior defeito?
Talvez a impaciência. É algo que tenho vindo a treinar [a paciência].
Quando eras criança, que é que querias ser no futuro? Sei que já disseste que na universidade sabias que querias ser empreendedora.
Talvez veterinária? Acho que sim. Pelo meu amor pelos animais, que continua.
Tens alguma palavra preferida?
Por acaso tenho – liberdade.
Boa escolha. Para terminar, alguma coisa que gostarias mesmo de fazer no futuro que ainda tenhas por fazer?
Olha, já te disse uma: eu já viajei muito, mas nunca vivi noutro país, portanto é algo que eu definitivamente vou fazer.
Algum país em particular que te chame mais a atenção?
Houve vários países que me marcaram nas viagens que fiz. Talvez a Califórnia, nos Estados Unidos. Eu quase que defino a Califórnia como um país, por ser, digamos, um estado à parte. Estar lá foi uma experiência absolutamente incrível, e a partir daí, sempre que me imaginei a viver fora daqui, era lá. Mas não sei, o mundo está a mudar tanto e tão rapidamente que poderá vir a ser outro, não sei.
Aqui na Europa tens algum que se destaque para ti?
Eu adoro Espanha, portanto poderia também passar por aí. Gosto muito de outros países europeus, mas não tanto para viver… por exemplo, adorei conhecer países nórdicos, como a suécia e Dinamarca, mas não me imaginaria a viver lá. Creio que também não sei se me mudaria para nenhum outro país latino a não ser Espanha.
Quais são os melhores vinhos para ti?
Os portugueses, claro! Que pergunta… (risos) Há outros muito bons, mas os portugueses (risos).
26 março 2026











