30.07.2026
Out of Office
Artigo

Reinaldo Sousa Santos: "Felicidade não é uma palavra ameaçadora, é simplesmente as pessoas sentirem que têm as suas expectativas concretizadas."

Reinaldo Sousa Santos, fundador da Happy Tree

Reinaldo Sousa Santos, fundador da Happy Tree, é natural de Barcelos, mas portuense por escolha – vive no Porto há cerca de 20 anos e é aqui que se sente em casa. Formado em Sociologia das Organizações, passou duas décadas como diretor de Recursos Humanos em várias empresas, até que uma espécie de crise de meia-idade o levou a arriscar num novo projeto. Doutorou-se na Faculdade de Economia da Universidade do Porto com uma tese sobre a felicidade no trabalho, tema que deu origem à Happy Tree, empresa que tem como missão levar mais felicidade à vida das pessoas no trabalho, mas também fora dele.

Já cumpriu os três rituais de quem diz ter uma vida completa: plantou uma árvore, escreveu um livro e teve um filho. Para esta edição do Out of Office, encontrámo-nos com o Reinaldo no Batalha Centro de Cinema, pois confessa ser apaixonado por filmes. Tem "Os Condenados de Shawshank" e "Notting Hill" no topo da lista, este último um ritual de conforto que partilha com o filho e que já os levou, os dois, a peregrinar até ao bairro londrino que dá nome ao filme.

O que é, concretamente, a Happy Tree?

É um projeto que acho que faz falta e que tem por missão levar mais felicidade para a sociedade, com um foco muito especial para o trabalho. Porquê? Primeiro, porque no trabalho nós podemos atingir dois objetivos muito importantes: por um lado, dar mais bem-estar as pessoas – e as pessoas precisam disso – mas também ajudar as empresas tornarem-se mais competitivas e mais sustentáveis, através de uma boa gestão das pessoas.

O que nós dizemos é que a felicidade no trabalho é possível, faz bem às pessoas e faz bem aos negócios. E, muitas vezes, as organizações querem ter as pessoas mais felizes, mais produtivas, mas não sabem como. Agora, encontram em nós o parceiro para podermos fazer esse trabalho em conjunto.

Através de que ações é que vocês possibilitam esta felicidade no trabalho? Que tipo de formações e iniciativas é que vocês levam às empresas?

A primeira coisa que nós fazemos é desmontar a ideia de que a felicidade é alegria. Há um pouco esta ideia de que as pessoas felizes são pessoas que estão sempre a saltar e a pular. E esta mensagem não é boa, porque cria alguma estranheza nas organizações. Muitas vezes, quando chegamos às empresas e dizemos que os nossos projetos são projetos sobre felicidade, obrigam-nos a mudar o nome para "bem-estar", às vezes para "motivação", às vezes para "desempenho" e "produtividade". O que nós transmitimos é que a felicidade não é uma palavra ameaçadora, a felicidade é simplesmente as pessoas sentirem que têm as suas expectativas concretizadas. Para as organizações é importante que as pessoas estejam envolvidas e satisfeitas no âmbito do trabalho, e o que nós fazemos é ajudá-las neste caminho.

Dizemos, também, que a felicidade no trabalho não acontece depois do trabalho. O nosso foco não é massagens depois do dia, não é bilhetes para ir ao cinema, nem atividades que acontecem depois do trabalho. Nós achamos que a felicidade se constrói no trabalho.

Equipa da Happy Tree, startup incubada na UPTEC.

É por isso que os nossos três eixos de atuação são, por um lado, criar um trabalho organizado, bem planeado, com meios para que as pessoas possam trabalhar bem, com uma liderança competente que as ajude. Além disso, criar um trabalho que seja valorizado e tenha um pacote de recompensas que permita às pessoas empenharem-se, desenvolverem-se e colocar o seu esforço.

Focamo-nos também num terceiro eixo, que é garantir um ambiente de trabalho que seja agradável para as pessoas, sem conflito e no qual tenham relações positivas. O que ameaça essencialmente a felicidade no trabalho – aliás, como também na nossa vida – são as relações que não são de apoio, de compreensão, de empatia, pelo contrário, são um vento contra, que faz com que o trabalho muitas vezes seja uma experiência em que as pessoas dizem: “Nunca mais é sexta, nunca mais chegam as férias, nunca mais chega a reforma…”.

O que nós dizemos é o contrário: o trabalho pode ser uma experiência extraordinária para as pessoas e para as organizações, desde que nós façamos um trabalho consistente, estruturado e assente naquilo que é fundamental para as pessoas no trabalho – poderem colocar ao serviço da organização o melhor que sabem.

"O que nós dizemos é que a felicidade no trabalho é possível, faz bem às pessoas e faz bem aos negócios. E, muitas vezes, as organizações querem ter as pessoas mais felizes, mais produtivas, mas não sabem como"

No fundo, acaba por ser uma questão de realização pessoal, de associar a realização pessoal também ao trabalho.

Sim. Na nossa vida pessoal também achamos isso, que a felicidade são momentos de alegria. Mas, muitas vezes, os momentos mais felizes da nossa vida não foram de alegria, provavelmente foram de realização. Ou seja, alguém dizia: “não és capaz”, e nós esforçamo-nos e mostramos: “aqui está, fui capaz”. Tem muito mais que ver com superação, e também com relacionamentos. Ou seja, eu sentia-me mal, alguém me ajudou, alguém parou para me perguntar se precisava de ajuda, e eu nem sabia que essa pessoa se preocupava tanto comigo.

A felicidade percorre mais o caminho da realização e dos relacionamentos do que o caminho da festa. E, por isso, não é um discurso que deves estranhar às empresas, pelo contrário, é um discurso que está alinhado com que as empresas querem, que é ter equipas mais bem dimensionadas, bem qualificadas e bem motivadas. É isso que nós fazemos.

Como tem sido o percurso da Happy Tree até aqui?

Tem sido muito interessante. A minha empresa decorre de uma ideia inicial de que a ciência tem produzido informação útil que pode ajudar as empresas a gerir melhor as suas pessoas. O que nós estamos a fazer é pegar nessa informação e levá-la para as empresas.

A nossa abordagem não é aquela que, às vezes, pode ser associada ao tema da felicidade. Não é: “vamos dar as mãos, fechar os olhos e o mundo fica todo perfeito”. O que nós dizemos é que há informação e conhecimento que pode ajudar as empresas a ter equipas mais bem preparadas para os desafios que têm, e fazer com que as pessoas possam chegar a casa mais satisfeitas com a sua vida. E é essa informação estruturada, consistente, sólida e de base científica que levamos para as organizações, de várias formas. Através de formação, programas de liderança, através de team buildings, por exemplo, ou de consultoria na área da gestão das pessoas. Nós tocamos todas as áreas que possam permitir às empresas gerir melhor as suas pessoas.

Em que ano foi fundada a Happy Tree?

Informalmente, foi tendo projetos desde 2020, mas, formalmente, existe desde 2023.

Reinaldo Sousa Santos, Fundador da Happy Tree

Se tivesses de escolher um momento-chave da Happy Tree, até agora, qual escolherias?

Eu acho que este percurso tem sido muito interessante, porque as pessoas à minha volta, muitas vezes, diziam-me: "A felicidade no trabalho… Isso não parece uma coisa que tenha interesse para as organizações" – o que nós temos visto é exatamente o contrário. Há um interesse cada vez maior das organizações em agarrar estes temas, e há uma vontade das pessoas de participar em programas em torno da felicidade, porque nós temos uma saúde mental que está muito longe do que nós desejávamos.

Mas ao mesmo tempo, com este frenesim de querermos mais, nem valorizamos o caminho que o país tem feito. A experiência de trabalho hoje é muito diferente do que era há 20 ou 40 anos. E nós, nesta vontade de querermos mais, não chegamos a valorizar o que temos. Uma das coisas que dizemos muitas vezes nos nossos programas é que a felicidade não é ter o que se quer, é querer o que se tem. E temos, hoje, empresas muito mais organizadas, com uma aposta na formação muito mais clara, com programas de capacitação mais bem estruturados e lideranças cada vez mais capazes. Mas isto significa que as pessoas são mais felizes no trabalho? Ainda não, porque têm mais expetativas.

Por isso é que este é um trabalho contínuo, que nunca vai estar verdadeiramente terminado, mas isso não tem mal nenhum. Do nosso lado, estamos aqui para continuar a apoiar pessoas e organizações nesta lógica de que a felicidade não é um destino onde se chega e está feito. O destino não existe, é uma viagem permanente, que tem a ver o que é feito diariamente, com ter um trabalho bem organizado, bem liderado e bem recompensado. E é isso que nós fazemos.

"As pessoas à minha volta, muitas vezes, diziam-me: 'A felicidade no trabalho… Isso não parece uma coisa que tenha interesse para as organizações' – o que nós temos visto é exatamente o contrário. Há um interesse cada vez maior das organizações em agarrar estes temas"

Consegues destacar alguns clientes com quem já trabalharam?

Nós temos trabalhado com muitas empresas, desde o setor dos seguros, da banca, farmacêuticas, construção civil, empresas públicas, câmaras municipais... Em todas elas, obviamente, temos de ajustar um bocadinho o nosso discurso, porque, falar de negócio, de lucro, usar algumas palavras, pode causar alguma estranheza na cultura da empresa.

Ia perguntar-te precisamente se encontravas muitas diferenças entre os setores onde vais dar formação.

Sim, às vezes existem, mas não sou um cliente da distinção público-privado, os “bons da fita” ou “maus da fita”. Não tenho essa ideia.

Acho que há bons exemplos em todo o lado. Há pessoas muito boas em todo o lado e em todas as organizações a que tenho ido, tenho sentido um acolhimento muito grande por estas temáticas. Às vezes temos que mudar um ou outro nome, mas isso faz parte do processo de adaptação.

Reinaldo Sousa Santos, fundador da Happy Tree, em entrevista com a UPTEC

Sabendo o que sabes agora, terias alterado alguma coisa no percurso da Happy Tree?

Eu acho que essa é uma reflexão que fazemos todos os dias. O que nós temos percebido é que a experiência de trabalho não se pode dissociar muito da vida das pessoas.

Temos agora um projeto muito interessante, um projeto de transição suave para a reforma. Criamos este projeto porque, à semelhança do trabalho, muitas vezes há uma certa ilusão sobre a reforma que depois não se concretiza na prática. Em Portugal, somos dos países do mundo com maior esperança de vida e, por isso, a reforma demora cada vez mais anos. Mas, ao mesmo tempo, somos dos países na Europa com pior qualidade de vida após a reforma.

O que estamos a fazer agora, com várias organizações, é ajudar as pessoas que estão a ir para a reforma a fazer uma transição suave. É muito interessante trabalhar este tema, porque tem muito a ver com técnicas de offboarding. As empresas trabalham muito a questão do onboarding, do acolhimento, mas trabalham muito pouco o offboarding. Isso às vezes não é socialmente responsável, porque as pessoas deram a vida toda àquela organização e depois parece que há uma porta que se fecha com estrondo e, de repente, a organização já não quer saber.

De um dia para o outro, aquilo que era uma grande parte da identidade da pessoa, deixa de existir completamente.

É mesmo isso. O trabalho, muitas vezes mal-afamado, é um dos pilares da nossa identidade, se calhar dos mais fortes.

Nós estamos com as pessoas com quem trabalhamos, às vezes, mais do que estamos com a nossa família.

Quando o trabalho acaba, há uma coisa que também acaba, que é a rede social que o trabalho oferece. A estrutura do dia, a necessidade de uma pessoa se arranjar para sair de casa, um horário… Uma pessoa que me pergunta como está a família, os filhos, como é que estão as coisas lá em casa, que olha para mim e percebe se estou mais triste ou mais contente – isso acaba.

Por isso, é importante ajudar as pessoas a fazer essa transição e a garantir que seja uma transição suave. Porquê? Porque é importante que os novos hábitos da reforma sejam estabelecidos antes da reforma. Para que depois, quando surge a reforma, saia o trabalho, mas tudo o resto continue de forma tranquila.

Isto para dizer que nós estamos empenhados na vida das pessoas. Nós queremos levar mais felicidade para a vida toda das pessoas e acho que esse é um trabalho permanente.

"Quando o trabalho acaba, há uma coisa que também acaba, que é a rede social que o trabalho oferece"

Além de seres fundador da Happy Tree, também tens outro trabalho – és professor universitário. Há quantos anos és professor?

Eu fui diretor de Recursos Humanos até 2019 e a partir de 2020 comecei a ser professor universitário em várias universidades, e gosto muito!

Gosto muito porque acho que é importante formar as pessoas na universidade, não só com conhecimento, mas também com uma energia positiva, dizendo-lhes que é possível fazer melhor. Muitas vezes apanhamos contextos difíceis, seja no trabalho, seja na família, seja até na universidade, e o grande objetivo não é que fique o melhor cenário do mundo, mas que fique um bocadinho melhor.

O que tento transmitir aos meus alunos é que eles podem ir para empresas na sua rua, em Lisboa, ou no estrangeiro, mas provavelmente através de um contributo empenhado, bem informado e estruturado, podem melhorar essa realidade. Tento criar essa ilusão, essa esperança e também essa responsabilidade, de que podemos fazer melhor.

Achas que a tua experiência enquanto professor universitário influenciou, de alguma forma, o percurso da tua empresa?

Eu acho que sim. Primeiro, deixa-me permanentemente atualizado. Todos os anos, tenho centenas de alunos dentro da porta que leram livros que às vezes não li, viram filmes que eu nunca vi e que se preocupam, que têm informação e que despertam em mim uma vontade de estar continuamente a aprender. A atualização permanente do conhecimento é fundamental para quem leva mensagens para as empresas.

Eu tenho pavor de ser um tretas (risos). Tenho pavor de ser um tretas, de dizer banalidades, por isso, antes de ir a qualquer lado, preparo-me devidamente. Ser professor universitário ajuda muito, porque quando vou falar aos alunos sobre formação, eu estudo muito para conseguir dizer coisas que façam sentido e que sejam úteis às pessoas. Seja sobre formação, avaliação de desempenho, estruturação de planos de bem-estar, sobre comunicação, gestão de conflitos, sobre liderança.

Por isso, quando depois a Happy Tree pega nestas mensagens e as leva para as organizações, eu sinto-me muito seguro, porque todo aquele conhecimento não caiu do céu. É um trabalho contínuo de aprendizagem e de partilha que eu acho que dá robustez e segurança aos nossos clientes.

Enquanto fundador, especialmente nesta área dos recursos humanos, achas que é fácil para ti conciliares a tua vida profissional com a tua vida pessoal?

Esse é um grande desafio. Ser professor já tem vários desafios – não temos propriamente um horário das nove às seis. Conciliar isso com os projetos nas organizações, em que a maior parte das vezes nós não ditamos o dia, a hora, e que muitas vezes não são ao lado de casa, são em Lisboa, no Algarve, ou noutros sítios... Obviamente que a agenda pessoal fica um bocadinho comprometida. Mas acho que é importante ter a noção de que a qualidade das nossas relações na vida pessoal não está totalmente marcada pela frequência, está na sua qualidade.

O que é importante é, quando estamos com as nossas pessoas, estarmos bem, estarmos inteiros e também estarmos realizados. E se o trabalho me realiza, que é algo que me realiza verdadeiramente, acho que isso também leva algo positivo para as relações que eu tenho na minha vida familiar.

Reinaldo Sousa Santos, fundador da Happy Tree

Estive a analisar um bocadinho o teu percurso e reparei em três coisas que já fizeste: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Estes objetivos eram coisas que sempre soubeste que querias concretizar?

Sim, sim. Eu tenho um filho, ele tem 17 anos, está naquele momento de ida para a universidade, que é um momento muito importante.

Acaba por ser o fechar de um ciclo para ti, que és professor universitário e agora tens um filho prestes a entrar na universidade.

É verdade. Durante os últimos anos, quando olhei para os meus alunos, imaginava o meu filho, de facto.

A questão do livro é interessante. Eu adoro ler, adoro escrever, e é muito curioso como a vida às vezes tem planos para nós que nós próprios não temos, não é? E que se sobrepõem aos nossos próprios planos.

Quando deixei a minha vida corporativa, tinha um plano, que agora ficou numa gaveta, que era escrever um romance. Fiz a pesquisa para esse romance, tinha tudo preparado na minha cabeça, sabia exatamente o mês em que o ia começar, mas no mês em que o ia começar, decidi escrever um livro sobre Felicidade no Trabalho.

Era o que estava a pulsar em mim, era o que eu queria fazer, e a partir daí o romance ficou em stand-by e surgiu esse livro, que levou a que esta mensagem fosse acolhida por muitas pessoas. Levou também à criação da Happy Tree e ao projeto que agora leva mais felicidade para a vida das pessoas.

"Tenho pavor de ser um tretas, de dizer banalidades, por isso, antes de ir a qualquer lado, preparo-me devidamente. Ser professor universitário ajuda muito, porque quando vou falar aos alunos sobre formação, eu estudo muito para conseguir dizer coisas que façam sentido e que sejam úteis às pessoas"

A tua árvore (risos). Além dos livros e da escrita, que já partilhaste que gostas muito, o cinema é outra forma de arte que tem para ti um papel importante, por isso é que decidimos encontrar-nos aqui, no cinema Batalha. Lembras-te do primeiro filme que viste?

Lembro-me perfeitamente do filme, mas provavelmente não vai entusiasmar mais ninguém – fui ver o “Rambo 2” (risos). Fui com um tio que ia com a namorada e me desafiou a ir ver e ainda me disse: “Mas tu não viste o Rambo 1”. Para mim não tinha mal, eu fui ver o “Rambo 2” e adorei!

Isso é uma memória incrível!

É uma memória incrível, lembro-me perfeitamente! E por isso tenho uma certa simpatia sempre que vejo o Sylvester Stallone em qualquer coisa, porque de facto foi a minha primeira interação com o cinema.

Qual é o teu género de eleição?

Eu gosto de filmes que não acabem quando a luz se acende, que venham comigo. Gosto de filmes que me façam pensar, acho que a arte é isso, tem algumas características extraordinárias para nós. Tem a capacidade de nos fazer pensar, de nos dar espanto e nos fazer imaginar coisas que não existem. Só há um não que é positivo, que é o “porque não?”. Às vezes, a arte faz-nos pensar: porque não? Porque é que isto não poderia ser diferente?

Recordo-me recentemente de dois filmes que vi e adorei. Um deles é o “Ainda estou aqui”, um filme brasileiro que nos faz pensar sobre como lidamos com a perda. Eu acho que aquele filme nunca poderia ser feito em Portugal, porque nós lidamos com a perda de forma muito tristonha, muito fechada, e só os brasileiros conseguem dizer: “Estamos tristes. Sorri, porque isso vai ter um impacto na vida das outras pessoas”. Acho que isso é uma mensagem fortíssima perante a dor forte de ter perdido uma pessoa muito chegada.

Vi também recentemente o “Valor Sentimental”, um filme norueguês que nos faz pensar sobre a dificuldade de tecermos relações familiares boas. A forma como nós, por vezes, somos muito sérios com as pessoas que temos mais perto. É um filme que toca, que aborda, com muita delicadeza, este tema. O amor não tem de ser sempre o amor da alegria, nem sempre tem que ser um amor de perfeição, mas provavelmente é o que mais interessa neste mundo.

Reinaldo Sousa Santos, fundador da Happy Tree

É engraçado que falaste de dois filmes que retratam, sobretudo, relações, um pouco daquilo que tu fazes no teu dia-a-dia.

No final do dia, tudo isto é sobre relações. Por isso é que, quando vamos fazer programas de formação e as pessoas estão insatisfeitas com o trabalho, provavelmente é porque há relações que não correm bem.

Há poucos dias, num programa de preparação para a reforma, eu tentava levar uma mensagem de otimismo para as pessoas e uma senhora dizia-me, com a sua verdade, mas com dor: “Como é que eu posso encarar a reforma com felicidade, quando os momentos mais felizes que tenho durante a semana são os dez minutos em que meu marido sai de casa para passear o cão e me deixa sozinha?”.

É sempre sobre relações. Quando são boas, queremos mais. Quando não são boas, queremos distância. Mas é importante termos esta noção de que a felicidade precisa de relações. Nós precisamos de pessoas por perto. Os estudos mostram que pessoas com mais com uma vida social mais rica são mais felizes, e dizem-nos também outra coisa – a solidão mata. As pessoas que estão sós morrem mais cedo e perdem a memória mais cedo.

Precisamos todos de criar uma sociedade mais comunitária, com mais pessoas que preocupem umas com as outras, que se apoiem e que se entendam. Falta muita empatia. Estamos sempre a dar lições de moral uns aos outros e, às vezes, as pessoas só querem ser compreendidas. Os nossos amigos gostam de nós, não porque nós resolvemos problemas deles, mas porque ouvimos e no final pagamos uma cerveja, damos um abraço e vamos para casa. É isso que às vezes faz falta também no trabalho. Nesta voragem de fazer coisas, nem sempre paramos, ouvimos e tentamos compreender o outro. Se fizermos mais isso, provavelmente teremos uma sociedade melhor, os ambientes de trabalho serão mais felizes, e até as empresas trabalharão melhor.

"Quando vamos fazer programas de formação e as pessoas estão insatisfeitas com o trabalho, provavelmente é porque há relações que não correm bem"

Enquanto criador que és, algum dia te vês a participar na criação de um filme?

Nunca tinha pensado nisso. Mas eu tenho a minha cabeça cheia de ideias para coisas que, provavelmente, podem não acontecer. Eu tenho a minha cabeça cheia de respostas a perguntas que nunca me fizeram, tenho ideias para livros começados e que não acabaram, por isso, pode ser que algum deles até possa ter movimento e imagem, quem sabe? (risos)

Agora, a pergunta mais difícil: se tivesses que escolher, qual é o teu filme favorito?

O meu filme favorito? Eu tenho isso muito claro! Tenho dois filmes favoritos.

O meu filme favorito é “Os Condenados de Shawshank”, porque é um filme sobre esperança, que me apanhou numa fase da vida em que estava na universidade, tinha 20 anos, e me marcou. Tenho colegas para quem foi “O Clube dos Poetas Mortos”, mas para mim foi este, pela mensagem de justiça e também de amor pela arte e pela liberdade, pela esperança – gosto muito.

Tenho também um outro filme que para mim é muito importante, que é o “Notting Hill”, um filme que vejo com o meu filho. Já o vimos centenas de vezes, (risos) sei-o de cor!

Mas era uma fixação que ele tinha quando era criança? (risos)

Não sei se era ele que tinha, se era eu (risos). Sei que é um filme que, muitas vezes, quando não temos nada para fazer, é o primeiro que vemos. Nós sabemos os dois ao mesmo tempo que, naquele momento, a Julia Roberts diz: “I’m also just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her”.

É muito engraçado que seja uma comédia romântica o filme de conforto que tens com o teu filho.

É verdade, é verdade. E no início deste ano fomos os dois a Notting Hill passar por aqueles sítios todos, tentámos avançar aquela vedação, fizemos tudo!

Reinaldo Sousa Santos, fundador da Happy Tree, em entrevista com a UPTEC

Isso é muito bom! (risos) Para terminar, tenho algumas perguntas rápidas para ti. Para começar, além dos três objetivos que já alcançaste – plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho – há alguma coisa que tu gostarias mesmo de fazer e que ainda não concretizaste?

Acho que há muitas coisas que eu gostava de fazer. Na esfera mais artística, gostava de escrever um romance. Tenho o romance na minha cabeça, preciso só de ter o tempo e a serenidade para o escrever. Acho que isso me vai realizar muito; vai-me fazer sofrer muito, mas também me vai realizar muito, e quero muito que isso possa acontecer.

Ao nível do trabalho, gostava também de poder levar esta mensagem a mais organizações. Eu acho que nós estamos, vou exagerar, mas estamos a salvar vidas. No fundo, vamos a contextos com pouco conhecimento, nem sempre como com muita luz ou otimismo, e levamos mais conhecimento e estrutura.

Fazemos com que as pessoas no dia seguinte consigam trabalhar melhor, sentir-se melhor e criar condições para que possam chegar a casa mais felizes da vida. É esta a nossa missão, que quero continuar – e não nos falta entusiasmo para isso!

"Gostava de escrever um romance. Tenho o romance na minha cabeça, preciso só de ter o tempo e a serenidade para o escrever. Acho que isso me vai realizar muito"

Há alguma coisa sem a qual não consigas viver?

Sem as pessoas de quem eu gosto muito.

Qual é a data mais importante da tua vida?

Amanhã.

Qual é o teu maior defeito?

O meu maior defeito, tenho tantos! Acho que às vezes ser demasiado acelerado.

E a tua maior qualidade?

Acho que sou boa pessoa.

Reinaldo Sousa Santos, fundador da Happy Tree

Quando eras criança, o que querias ser?

É a mais pura verdade – eu queria ser o Marco Paulo. (risos) Eu queria ser o Marco Paulo!

Por favor, aprofunda a resposta (risos).

Tenho uma memória de infância maravilhosa – eu assisti a um concerto do António Variações. Há poucas pessoas que possam dizer isto. O António Variações fez uma primeira parte do concerto do Marco Paulo e eu andei semanas a convencer os meus pais a levarem-me ao concerto!

Era por causa do cabelo?

Era tudo! O Marco Paulo era o maior. Para uma criança, o Marco Paulo com os seus caracóis, com as suas músicas, era o maior! Deve ser o equivalente a hoje querer ser o Ronaldo.

É uma boa comparação (risos). Para terminar, uma última pergunta: tens alguma palavra preferida?

Tenho – reciprocidade. Acho que é a palavra mais bonita do mundo.



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