José Silva: “Quando os satélites estão em órbita, a margem para erro é muito reduzida”

Na UPTEC temos as portas abertas a novas ideias, inovação, desafios e intercâmbios. Recebemos startups, universidades, hubs e grandes empresas de todo o mundo. Nesta edição do Open Doors, conversamos com José Silva, da Solenix, sobre a complexidade do setor espacial, a importância da inovação contínua e o papel de Portugal no crescimento internacional da empresa.

JoséSilva da Solenix, centro de inovação instalado naUPTEC

José Silva || Diretor-geral da Solenix Portugal

Solenix || Suíço-germânica || 80 trabalhadores

 


Que problema é que a Solenix resolve? Fala-nos um pouco da solução que desenvolvem.

Contribuímos para um desafio mais amplo enfrentado pelo setor espacial. Cada missão espacial gera grandes volumes de dados complexos e requer sistemas extremamente fiáveis para operar satélites e extrair valor desses dados. Os satélites operam longe da Terra, muitas vezes durante vários anos, e, uma vez em órbita, a margem para erro é muito reduzida. As organizações do setor espacial necessitam, por isso, de engenharia avançada, de sistemas de software e de conhecimento operacional para garantir que as missões decorram em segurança e que os dados sejam transformados em informação útil.

É aqui que a Solenix intervém. Ajudamos organizações do setor espacial a desbloquear todo o potencial das suas missões, através de serviços de engenharia, produtos de software e operações ao longo de todo o ecossistema espacial. Isto inclui operações de satélites e dinâmica de voo, consciência situacional espacial, sistemas de monitorização, processamento de dados de missão e aplicações a jusante que transformam dados de satélite em serviços e insights na Terra.

O que torna a nossa abordagem eficaz é a combinação de um profundo conhecimento do domínio espacial com fortes competências em engenharia de software. Ao unir estas áreas, ajudamos as organizações a operar as suas missões de forma mais eficiente, a extrair mais valor dos dados e a continuar a aprofundar o conhecimento sobre a Terra e o espaço.

Que papel desempenha a inovação contínua no desenvolvimento das vossas soluções?

Solenix opera num setor competitivo e altamente exigente, no qual a única forma sustentável de se manter como parceiro de confiança é melhorar continuamente o seu trabalho. Isto vai além dos produtos e soluções de engenharia: inclui também a forma como operamos, colaboramos com os clientes e adotamos novas tecnologias. A inovação cria valor a longo prazo, enquanto competir apenas pelo preço, sem evolução tecnológica, não é sustentável nem atrativo.

É também essencial para atrair e reter talento. Os engenheiros procuram trabalhar em problemas relevantes e desafiantes, utilizando tecnologias modernas, e manter um ambiente inovador é fundamental para construir equipas fortes.

A inovação faz parte da Solenix desde o início. A empresa começou com o MUST, um sistema distribuído que transformou a forma como a telemetria de satélites é armazenada e analisada, tornando-a legível e rapidamente acessível. Numa altura em que a análise de telemetria podia demorar horas devido à despacketização em tempo real, esta solução representou um avanço significativo na eficiência operacional.

Qual foi o motivo que levou a Solenix a escolher Portugal para estabelecer uma nova subsidiária?

Portugal já está no nosso radar há bastante tempo. Ao longo dos anos, trabalhámos com vários profissionais portugueses no nosso grupo e sempre tivemos experiências muito positivas. Existe um forte alinhamento entre os valores da nossa empresa e a cultura de trabalho portuguesa, particularmente no que diz respeito à colaboração, à qualidade técnica e ao compromisso. O nosso CEO gosta muito de Portugal e o país sempre foi visto de forma muito positiva na empresa.

Então, a verdadeira questão para nós não era tanto porquê Portugal, mas sim porquê agora.

A resposta é que este é o momento certo. O setor espacial em Portugal tem crescido significativamente nos últimos anos. Através da Agência Espacial Portuguesa e da Agenda do Espaço, o país tem vindo a desenvolver um ecossistema dinâmico que envolve indústria, instituições de investigação e novas empresas do setor espacial. Isto cria oportunidades reais de colaboração e desenvolvimento que simplesmente não existiam à mesma escala há cinco anos.

O nosso objetivo é duplo. Por um lado, queremos contribuir com a nossa experiência para apoiar o desenvolvimento do ecossistema espacial português, particularmente em áreas como operações de satélites, desenvolvimento do segmento terrestre e aplicações a jusante baseadas em dados de satélite. Por outro lado, vemos também Portugal como um espaço onde podemos aprender, colaborar e adquirir novas competências a partir do ecossistema local, reforçando a Solenix como um todo.

JoséSilva da Solenix, centro de inovação instalado naUPTEC

Como é que a presença em Portugal, na UPTEC, contribui para a estratégia global da empresa?

Em primeiro lugar, permite-nos expandir a nossa capacidade de engenharia. Portugal tem uma forte tradição na formação em engenharia e um setor aeroespacial em crescimento, especialmente em torno de universidades e de centros como a UPTEC. Ao estabelecer uma presença no país, conseguimos atrair talento qualificado e reforçar as capacidades globais do grupo Solenix.

A presença local permite-nos também colaborar com empresas portuguesas, instituições de investigação e universidades, contribuindo com a nossa experiência em áreas como operações de satélites, desenvolvimento do segmento terrestre, inteligência artificial e aplicações a jusante baseadas em dados de satélite.

Por fim, a subsidiária reforça a nossa capacidade de trazer projetos europeus para Portugal. A Solenix tem um histórico sólido com organizações como a ESA e a EUMETSAT, e o nosso objetivo é atrair parte dessas atividades para o país, criando oportunidades para o talento local e reforçando a nossa posição competitiva na Europa.

Em suma, o escritório em Portugal não é apenas uma nova localização para a empresa. É um passo estratégico que nos permite expandir competências, inovar em novas áreas e construir parcerias sólidas no crescente setor espacial português, ao mesmo tempo que reforça o grupo Solenix.

JoséSilva da Solenix, centro de inovação instalado naUPTEC

A que fatores atribui o sucesso da Solenix?

Em primeiro lugar, a profunda especialização e fiabilidade num setor altamente exigente. Ao longo dos anos, a Solenix construiu uma sólida credibilidade ao apoiar grandes instituições europeias, como a ESA e a EUMETSAT, e ao fornecer soluções de engenharia consistentemente fiáveis.

Em segundo lugar, a qualidade e o compromisso das nossas equipas de engenharia. O nosso trabalho centra-se, essencialmente, na resolução de problemas complexos dos nossos clientes. Muitos dos nossos engenheiros trabalham diretamente com as equipas dos clientes e, frequentemente, vão além das obrigações contratuais para garantir o sucesso das missões. Este nível de responsabilidade e parceria é altamente valorizado pelos nossos clientes.

Em terceiro lugar, uma forte cultura de inovação aliada à simplicidade. Focamo-nos em soluções que funcionam em contextos operacionais reais e ajudam os nossos clientes a melhorar as suas missões e operações.

Por fim, destacaria as relações de longo prazo e a capacidade de adaptação. A nossa capacidade de nos adaptarmos, mantendo parcerias sólidas com os clientes e entregando resultados consistentes, tem sido um elemento-chave do nosso sucesso.

No final, o nosso sucesso resulta de uma combinação simples: experiência de confiança, pessoas talentosas, inovação prática e parcerias sólidas e duradouras com os nossos clientes. Estes são valores que fazem parte da nossa empresa. Para nós, trata-se de viver esses valores.

Que conselho daria a quem está a criar um negócio ou a liderar uma equipa?

Em primeiro lugar, compreender o contexto antes de tentar mudá-lo. Cada mercado, organização ou país tem as suas próprias dinâmicas. Em segundo lugar, escolher cuidadosamente as pessoas que vão fazer este percurso. Ninguém constrói um negócio ou lidera uma equipa sozinho. Estar rodeado de pessoas competentes, que tornam o percurso construtivo e motivador, faz uma enorme diferença.

Em terceiro lugar, basear as decisões num diagnóstico real do problema. Quando algo não está a funcionar ou é necessário decidir o próximo passo, é importante resistir à tentação de aplicar soluções genéricas ou estratégias da moda. É fundamental começar por perceber o que está realmente a acontecer, identificar as causas de raiz, desconstruir o problema e, só depois, definir as ações a tomar.

Por fim, combinar realismo e ambição. Enquanto líderes, devemos ser rigorosos e pragmáticos na avaliação de riscos, constrangimentos e probabilidades. Mas, ao mesmo tempo, construir algo novo exige paixão, otimismo e, por vezes, alguma ousadia. O essencial é apontar alto, mantendo sempre os pés bem assentes na terra.

JoséSilva da Solenix, centro de inovação instalado naUPTEC

30 de março de 2026

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